Sunny dormiu 21 anos seguidos nos autocarros de Londres e viu a cidade mudar


História contada pela BBC dá-nos a visão de alguém que assistiu à evolução da cidade de uma perspetiva alternativa. Garante que o número de brancos diminuiu e cresceram os sem-abrigo e a hostilidade para com os migrantes

Terá agora 58 anos, fugiu da Nigéria algures nos anos 1990 para escapar à execução e passou 21 anos a dormir nos autocarros de Londres após o pedido de asilo ter sido recusado. É esta a história de Sunny, nome fictício, narrada pela jornalista da BBC Venetia Menzies, num artigo publicado este domingo após um trabalho de cerca de um ano.

O nigeriano foi parar ao Reino Unido após uma fuga organizada por familiares e amigos quando Sunny estava encarcerado por “lutar pela democracia” e à espera da ordem de execução. O país era então comandado pelo general Sani Abacha, que ficou conhecido por reformas que promoveram o crescimento económico mas também por contínuas violações dos direitos humanos. Morreu em 1998, alegadamente de ataque cardíaco, possivelmente assassinado.

Quando Sunny chegou a Londres sentia-se grato por esta segunda oportunidade. Pediu asilo, estudou documentário e iniciou um trabalho sobre os sem-abrigo da cidade sem imaginar que em breve se tornaria mais um. Quando as autoridades britânicas lhe recusaram o pedido, teve de escolher entre regressar à Nigéria e possivelmente morrer ou manter uma vida anónima, mesma que na pobreza.

Sunny cedo percebeu que o lugar mais seguro para passar as noites eram os bancos dos autocarros noturnos que percorrem Londres – especialmente no piso inferior. De dia fazia voluntariado em algumas igrejas, frequentava uma biblioteca em Westminster para ler jornais e livros e também sentiu solidariedade: pedia comida em vários restaurantes e diz que raramente lhe era recusada.

Os funcionários do McDonald’s de Leicester Square merecem uma menção especial: não só lhe davam comida como lhe permitiam fazer a barba na casa de banho do restaurante. Todos os meses era essencial ter dinheiro para o passe, o que conseguiu sem nunca pedir nas ruas, assegura.

Mais de 20 anos a viajar durante a noite nos autocarros, em que duas horas de sono já eram uma conquista, permitiram-lhe uma visão privilegiada da sociedade londrina, pelo menos daquela que vive à noite. Identifica três grandes grupos: os madrugadores que vieram para Inglaterra à procura de uma vida melhor e que trabalham maioritariamente em limpezas; os notívagos, maioritariamente caucasianos, que regressam a casa de madrugada, muitas vezes embriagados; e, por último, os sem-abrigo.

Sunny diz que aprendeu a antecipar conflitos no autocarro e a evitá-los. Garante que é notório que a população branca diminuiu ao longo dos anos e que o número de sem-abrigo cresceu muito. E recorda que a hostilidade para com os migrantes aumentou após o referendo do Brexit e pregões como “voltem para casa” passaram a ser usuais.

Esta história contada pela BBC tem um final feliz, ainda que sem grandes detalhes: um centro de refugiados perto de Leicester Square ajudou-o a conseguir a legalização e a reconquistar o direito a ter uma identidade – provar que já estava no Reino Unido há mais de 20 anos foi uma luta difícil, porque evitava qualquer registo com o receio da extradição. Desde 2017 que já não corre esse risco.

noticia e imagem tirada do site expresso

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